
As possíveis aplicaÇÕes das conclusÕes cientÍficas e suas abrangÊncias temÁticas e temporais.
A ciência só é válida para o que é seu objeto de estudo. Não é possível extrair conclusões para outros objetos com segurança. Ademais, o conhecimento científico é rapidamente mutável e possui áreas muito extensas, cujo conhecimento é basicamente desconhecido. Há quem afirme que estamos num limite da aquisição de conhecimentos sobre a Natureza e que rodamos em círculo sobre os mesmos.
Na realidade, todo o mecanismo descrito para o funcionamento coclear e de transmissão nervosa da informação sonora é conhecido somente em parte, e está ainda sujeito a profundas revisões. É provável que a parte referente ao próprio córtex leve gerações para ser realmente compreendido.
Tomemos o exemplo do órgão de Corti. Vimos toda a estrutura conceitual montada a partir de Helmhotz e von Békésy. Completemos dizendo que a velocidade de transmissão da vibração sonora na perilinfa é de 1.600 m/s. Já a membrana basilar é percorrida pelas ondas viajantes que progridem a uma velocidade de 105 m/s no início e de 10 m/s perto do helicotrema. Isto já nos indica um problema a resolver. É a onda de pressão do líquido ou a vibração das ondas basilares quem responde pela estimulação dos receptores auditivos?
Von Békésy havia observado a membrana basilar com microscopia óptica de pouca resolução, o que permitiu observar uma pequena parte da membrana basilar s suas vibrações com níveis de pressão sonora superiores a 120 dB SPL
Mössbauer desenvolveu uma técnica baseada na leitura da modulação Doppler impressa ao registro do movimento de átomos de cobalto-57 colocados sobre a membrana basilar. Johnston e Boyle (1967) e outros começaram por demonstrar a curta duração do acionar da membrana após ser retirada de animais ou observada em animais mortos. Também demonstraram que a resposta se deteriorava rapidamente durante qualquer experimento. Posteriormente, utilizaram-se de micro-capacitâncias para investigar o comportamento discriminativo e ressonante da membrana, que correspondia razoavelmente à idéia das áreas ressonantes como responsáveis pela discriminação.
Porém, outras observações fizeram-se evidentes. Alguns fenômenos de supressão de tons vizinhos por tons mais intensos (supressão lateral) têm sido associados ao efeito de ressonância dos próprios cílios das CCI. Estas teriam um padrão de comprimento relativo nos feixes agrupados, o que faria com que fossem ressonantes com independência da vibração da membrana basilar, assim como em relação ao próprio líquido. Haveria também estruturas mecânicas – similares às mencionadas pela primeira teoria de Helmoltz – no suporte desses cílios. Dancer (1992) infere similar conclusão, demonstrada observando-se o atraso de fase e tempo entre a velocidade da membrana e da perilinfa.
Qual seria então, o papel da membrana basilar? , pergunta -nos Warren .
Uma possibilidade (Braum, 1994) é a de que os estereocílios vibrariam e gerariam estímulos aferentes nos dendritos dos neônios correspondentes com sinais de baixo volume, retirando energia da perilinfa, à qual responderiam em sintonia. A membrana basilar não teria nenhum papel nessa fase. Porém, seria de importância com sinais de alta intensidade, quando seu papel seria o de proteger os estereocílios contra movimento excessivo. Isso seria através de mecanismo vibrátil ressonante da membrana. Os cílios, nesses níveis, seriam excitados em forma de ressonância passiva, por arrasto viscoso.
A diferença de massa entre os estereocílios e a membrana basilar reforçaria essa tese. Por outra parte, não existe outro sentido humano capaz de, com uma única estrutura transdutora, entregar-nos tamanha latitude de potências de estímulo admissíveis e manejáveis sem lesão.
Observações de sons de banda estreita gerados pela cóclea e detectados no canal auditivas são conseqüência de ressonância ativa, atribuída as CCE.
O ouvido como instrumento - Apesar de tudo, essa maravilhosa maquinaria que é o sistema auditivo é um instrumento imperfeito se o compararmos com os objetivos que deveriam ser atingidos por um equipamento reprodutor de som. Porém, nossa audição é de primeira qualidade. Obtemo-la de um instrumento pobre (o ouvido). Em parte, sim. Inúmeras investigações comprovam que o cérebro está continuamente compensando, comparando e re-sintetizando informação. Em determinados processos (como o da detecção de fontes de som às nossas costas, por exemplo (a diferença de sensibilidade na curva de resposta do ouvido mostra desvios que podem exceder os 30 ou 40 dB, sem que isso seja percebido por nós).
Um exemplo de que poderíamos estar menosprezando a sensibilidade do sistema auditivo é um dos mecanismos envolvidos na percepção da direção do objeto sonoro. Neurônios originados em células de ambas as cócleas enviariam impulsos que chegariam a um outro estágio celular - quase ao mesmo tempo - mas por caminhos ligeiramente diferentes em comprimento. As células seguintes receberiam estímulos excitatórios ou inibitórios de acordo a simultaneidade de essa chegada aferente. A estrutura de gripo sináptico faria com que só seriam disparados potenciais quando a chegada fosse simultânea, o que implicaria em discriminação da ordem de chegada dos impulsos de origem de menos de 20 microssegundos. Isto pouco tem a ver com a capacidade resolutiva de 20 KHz !!
Uma outra história que ouvi pessoalmente de um engenheiro de projetos de uma fábrica dinamarquesa de amplificadores mostra algo similar. Estavam testando um protótipo de decodificador digital-analógico quando perceberam, auditivamente, que algo não estava funcionando adequadamente. Depois de outros engenheiros ouvirem a mesma coisa – com dúvidas de alguns sobre a materialidade do que criam estar ouvindo – desmontaram o circuito e encontraram uma conexão que invertia a fase de um dos chips do DAC. Para encurtar, os engenheiros da outra fábrica, duvidando de que o descobrimento houvesse sido feito auditivamente, afirmaram que o problema de conexão realmente existia, mas seria "inaudível". Houve um desafio sobre essa audibilidade, e, colocados quatro DACs com três deles com conexão correta, formou-se um painel de ouvintes. Foi realizado um teste cego que deu como resultado um acerto na identificação do DAC com o chip invertido de fase por quase todos os ouvintes. Estamos falando de discriminação muito além da que se supõe possível para o ser humano.
Muitas interrogações do tipo se fazem presentes na vida diária de qualquer profissional de áudio interessado e curioso, alem de sensível. O desconhecimento imenso que temos dos meandros da fisiologia auditiva quanto à construção cerebral de elevada sofisticação faz com que seja tentador negar qualquer inconsistência entre a teoria e a prática e pensar que o que não esta descrito nos livros – em todos os livros, diga-se - não existe. As premências das nossas obrigações industriais e mercadológicas colaboram também para isso. Mas não está demais tecer algumas considerações marginais.
A impossibilidade de mensurar adequadamente esses fenômenos fez com que fossem elaborados certos métodos estatísticos baseados às vezes em reações subconscientes dos sujeitos em observação e muitas outras nos relatos que esses mesmos sujeitos fazem da experiência. Estamos longe, contudo, de poder analisar objetivamente a totalidade do fenômeno perceptivo sonoro que acontece em nossos cérebros.
A aparição de aparelhos reprodutores de som fez surgir em épocas iniciais a inquietude pela qualidade da reprodução do evento sonoro. No início, foi desenvolvida uma série de medições laboratoriais aplicáveis a esses aparelhos reprodutores, em parte pela necessidade de boa inelegibilidade nas comunicações telefônicas. Posteriormente, em especial após o desenvolvimento do Long Play como mídia musical, que elevou a qualidade de audição musical intermediada a um nível surpreendente na época, esforços foram realizados para poder descrever as características sonoras desses equipamentos que não podiam ser expressadas através de quantificações numéricas, nem com observações laboratoriais com instrumentos. Na realidade, pouco pôde ser realizado nas últimas décadas para encontrar sistemas de mensura quantitativos que pudessem descrever as características sonoras ou orientar para o desenho e construção de melhores equipamentos. Paulatinamente desenvolveu-se no meio profissional – engenheiros de gravação, acústica de ambientes e jornalistas especializados – temos descritivos que com o tempo foram sendo de uso comum, embora com definições e aplicações práticas não sempre universais [23i].

Figura 44 [24i]: Um exemplo de nomenclatura descritiva de distintas sonoridades ou de características sensoriais dessas sonoridades. (Univ. S. Bolívar)
Em grande parte, os termos utilizados possuem uma conotação visual (como ‘palco sonoro", som "brilhante" ou "opaco", por exemplo), às vezes tátil (textura do som, som aveludado, áspero), energético (som vivaz, dinâmico, apagado) ou emocional (agressivo, delicado, envolvente), concreto (corpóreo, palpável ou abstrato (transparente, etéreo, com detalhe interno).
Existe pouca correlação entre esses termos que descrevem sensações reais e universais, pelo menos entre pessoal treinado para reconhecer diversas características do som, e medições que possam ser realizadas ou que o sejam habitualmente. Grande parte das medições realizadas em equipamentos de áudio têm como objetivo facilitar as tarefas de desenho e construção, e não são muito úteis para descrever a sonoridade em si. A maior parte delas é realizada em condições total ou relativamente estáticas, com poucas variações dinâmicas ou de complexidade do padrão de onda, como acontece constantemente na música real. A difusão de técnicas e componentes de baixo custo, aliados ao desenvolvimento de um mercado de massas muito amplo para equipamentos de som e para a própria produção musical criaram uma geração que pouca música acústica ouve, e isso facilita a pouca discriminação de qualidade de reprodução nos produtos industriais de massa. Como corolário, poucos investimentos são realizados para estabelecer uma correlação entre medições e qualidade musical, por terem pouco retorno, e são usadas as mesmas avaliações objetivas e laboratoriais de décadas atrás. A ilusão tecnológica levou à demora de mais de uma década em realizar as limitações da técnica digital de tratamento do som, por exemplo. Curiosamente, e por primeira vez na história da tecnologia e da indústria, técnicas de mídia "superadas", como o Long Play, insistem em manter sua vigência – ao menos em países desenvolvidos e em segmentos mais críticos do publico ouvinte, mais familiarizado com a audição musical – e manter a produção de equipamentos para reproduzi-los, assim com também a persistência de gravadoras de LPs. A sobrevivência das válvulas termiônicas é um outro exemplo de descompasso entre técnica e audição.
Nossas mentes impacientes, acostumadas a encontrar respostas imediatas em recursos tecnológicos ao nosso alcance, empurram-nos a encontrar alívio nas respostas supostamente certas sobre fenômenos "conhecidos" e também a negar outros, que não menos evidentes, ainda não foram incluídos na lista dos fatos "científicos". Rubem Alves tem muito a dizer sobre isso, e um magnífico artigo relacionado com música e ciência pode ser lido em http://www.polbr.med.br/arquivo/cient8.htm
Testes auditivos do tipo "ABX" têm sido utilizados e conclusões tiradas e aplicadas no desenho de equipamentos de áudio com resultados às vezes muito duvidosos. Não tem sido levado em consideração que equipamentos de música são para ouvir música, que é um fenômeno muito complexo e com muita elaboração cerebral. Na realidade, muitos deles só servem para afirmar qual é o menor nível de qualidade de reprodução de áudio que passaria desapercebida para um público desavisado em ambiente pouco familiar.
Um exemplo seria a tentativa de realizar um teste "ABX" com duas ou mais radiografias. Na medida em que elas fossem mais e mais parecidas, os resultados seriam "consistentemente" positivos no sentido de serem consideradas "iguais". Seriam os resultados igualmente interpretados se algum dos presentes fosse radiologista? Uma vez mostradas as enormes diferenças que existem entre RX quando olhados tecnicamente, seriam os leigos capazes de melhorar sua percepção e discriminar melhor num segundo teste? Testes e medições não garantem qualidade, a menos que tenham sido pensados para esse objetivo, o que não é o caso da maioria dos testes atuais.
Citamos aqui a Richard M Warren [10, pg 123], "Shoud Trained or Untrained Subjects Be Used in Sequence Experiments?": "A questão de usar sujeitos treinados ou não em experimentos de percepção é importante, desde que a escolha possa ter profundos efeitos nos resultados obtidos. Sujeitos treinados podem ser muito mais consistentes nas suas respostas e fazer distinções impossíveis para sujeitos não treinados. .... A comunicação de Divenyi e Hirsh (1974) de que sujeitos muito treinados podem "identificar" a ordem temporal de seqüências tonais não-recicladas de três componentes a durações tão baixas como 2 milisegundos, assim como a comunicação de Neisser e Hirsh (1974) de que um dos seus muito treinados sujeitos tinha um limiar de "identificação" de ordem em seqüências ciclados e não-ciclados de quatro componentes de cerca de 30 milisegundos por componente, poderia muito bem representar exemplos dos resultados de tal "rote learning" ..." Os perigos da incorreta interpretação de resultados, atribuível a procedimentos de treinamento não estão limitados à percepção de seqüências e foram discutidos previamente em relação a outros estudos como relação tempo-intensidade e apreciação de volume sonoro".
Dissemos que o mundo físico originário dos sons é diferente do mundo mental que interpreta e reelabora esses sons para configurar a audição. "Não é que nossos cérebros juntem uma teia de relações para formar a música e, depois, a "ouçam". Em vez disso, ouvir é o ato de modelar essas relações...ninguém jamais verá um peixinho dourado retorcendo-se ao compasso de uma valsa, porque não são as notas de uma valsa, mas as relações entre essas notas, que fazem o corpo querer dançar. Essas relações – imponderáveis, resistentes a observação, difíceis de descrever e classificar – é que são música, não as vibrações atmosféricas que os instrumentos musicais provocam "[ 1] .
A situação que se nos apresenta quando queremos quantificar sensações, ou relacionar medições físicas com aquelas, e, em certa forma, similar a que ocorre na mecânica quântica. No instante em que acessamos o objeto em estudo, ele já não é mais o mesmo. Nossa irrupção mudou-o irremediavelmente. E, claro, a nossa tentação e negar o fato, ou, simplesmente, ignora-lo e procurar outros objetos de medição mais previsíveis.
Citaremos aqui a Roederer [4]:
"E aqui chegamos talvez às diferenças mais cruciais entre física e psicofísica:
Repetidas medições da mesma espécie podem condicionar a resposta do sistema psicofísico em observação: o cérebro tem a habilidade de aprender gradualmente, mudando a probabilidade de resposta a um certo estímulo de entrada, à medida que aumenta o número de exposições semelhantes.
A motivação do sujeito em estudo e as conseqüências, mentais ou físicas, disso podem interferir nas medições de uma forma altamente imprevisível.
Como conseqüência do primeiro ponto, um estudo psicofisico com um único indivíduo exposto a repetidas ‘medições’ nunca será idêntico a um estudo estatístico envolvendo uma única medição tomada com vários indivíduos diferentes, Isso é devido não só às diferenças entre os indivíduos, mas também ao condicionamento que ocorre no caso de exposições repetidas.
....a psicoacústica, por exemplo, só menciona a questão ‘por que ouvimos o que ouvimos?’, quando estamos expostos a certo estímulo acústico, mas ela não lida com o quê estamos ouvindo! Em outras palavras, ela não considera os processos de mais alto nível: cognição, comportamento e resposta emocional ..."
Porém, às vezes insistimos em testar as notas, na suposição de que se elas estiverem corretas, a música também estará.
Será que estamos usando os testes adequados? Será que estamos medindo as magnitudes que interessam? São perguntas absolutamente necessárias para a correta aplicação de uma metodologia científica consistente em áudio.
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