
As informaÇÕes e o sistema nervoso central (SNC)
São consideradas informações tudo aquilo que os nervos transmitem de, para ou entre partes do SNC. Entre essas informações estão dados do meio ambiente, que são convertidos em impulsos nervosos comuns antes de serem processados. Parte da informação que é proveniente do ambiente externo gera respostas de diversos graus de automatismo, em diversos níveis do SNC, desde os mais próximos à origem do estímulo – como a medula espinhal – até os mais afastados – como o córtex cerebral. Cada um desses níveis é herdado de fases evolutivas prévias na escala filogenética. O resto dessa informação, a maior parte, é guardada nos circuitos neuronais por períodos variáveis de tempo. O seu destino é gerar respostas menos reflexas e mais elaboradas e sofisticadas, e em formar um depósito de material de referência para modular e controlar respostas. É o que chamamos de aprendizado, parte do qual é consciente.
As informações do exterior são recrutadas em forma mapeada, geralmente. A intensidade é codificada como somação espacial ou como somação temporal. Na primeira, na medida em que o estímulo é mais intenso, mais fibras vizinhas começam a transmitir impulsos. Na segunda, a freqüência da geração dos impulsos é a que muda.
Resumindo, podemos dizer que o sistema de audição humano é um dos mais complexos e sofisticados mecanismos de transdução existentes na natureza. Sua gama dinâmica é enorme, sua capacidade de extrair informação do meio ambiente muito apurada e sua capacidade de síntese da informação terminou permitindo que seja usado para fins muito alheios e distantes daqueles a que estava destinado, como, por exemplo, ouvir música. Na realidade, ainda desconhecemos a maior parte do mecanismo auditivo, em especial o que se refere aos mecanismos internos do cérebro.
À diferença dos mecanismos envolvidos no ouvido, a forma como a informação é integrada no cérebro, mais especialmente no córtex, é menos conhecido.
Sabemos que em princípio existe um mapeamento - conversão de padrão de freqüências em espacial – que está a cargo, principalmente, da cóclea. Na medida em que os impulsos sobem para instâncias superiores, o padrão espacial mapeado vai se ampliando e se confundindo numa rede neuronal cada vez mais interconectada horizontalmente. O número de neurônios envolvido cresce dramaticamente e a informação representa cada vez mais detalhes complexos do evento sonoro, e é cada vez mais influenciado por fatores comportamentais do individuo, com participação da memória e de centros responsáveis pelo tono emocional básico.
No estágio dos corpos coliculares já encontramos uma boa resolução de freqüências, intensidade e direção do som e já há reflexos bem estabelecidos. No corpo geniculado médio e no colículo superior inicia-se alguma capacidade de reconhecimento do objeto sonoro: onde e para onde se dirige no espaço e no tempo. A esse nível, inicia-se também a integração com as informações com os outros sentidos.
O último estágio identificável é o córtex auditivo, cuja principal função é a de integrar a informação – depois de identificado o objeto gerador – no ambiente. Essa integração começa a dar um sentido à informação sonora, e a prepara para ficar à disposição dos estados conscientes do cérebro. Por intermédio do corpo callosum e outras estruturas de interconexão, a informação se faz cada vez mais integrada aos outros sentidos e outras funções cognitivas superiores. Estas completam a tarefa de manifestar aspectos relevantes da percepção e colocá-lo na memória temporária ou definitiva, ou então descartar todo ele ou, ao menos, os aspectos irrelevantes. Podemos ver que o que chega à nossa consciência é um subproduto da informação original, a qual foi recombinada, analisada e resintetizada, integrada e valorizada, comparada com experiências anteriores, e finalmente integrada num contexto geral onde o fator preponderante é a personalidade, a experiência histórica e o estado emocional e cognitivo atual.
O que ouvimos conscientemente tem uma relação razoavelmente consistente com o som e o mundo exterior à mente, mas com relação somente parcial com as particularidades físicas do evento. O que ouvimos é, na realidade, uma criação da nossa consciência e da nossa personalidade como re-elaboração da realidade sonora. Fundamentalmente, o que ouvimos e o resultado de uma intencionalidade do nosso cérebro, trinado por milhões de anos de priorizar informações para fins de subsistência.
Algumas características e peculiaridades da nossa audição mostram que para o nosso cérebro o que importa pode ser diferente que para quem tem que desenhar um aparelho reprodutor. Por exemplo, mesmo que na vida cotidiana de nosso século não seja muito importante a localização do som, mas em relação à identificação da sua fonte, o nosso sistema auditivo permanece sendo aquele que milhões de anos de evolução criaram. Até muito pouco tempo atrás era muito mas importante localizar a fonte de som que identificá-la. A fuga ou o ataque dependiam, dessa "minúcia". O resultado era a alimentação ou...a morte. Tão importante foi essa capacidade de localização que nossos ouvidos realizam essa tarefa de cinco ou seis maneiras, em parte redundantes. Às vezes, surpreendemo-nos ao perceber que em determinadas situações nosso sistema auditivo ouve muito mais coisas das que seria "lógico", ou consensual, pensar que ouve. Pensemos na forma como reconhecemos a voz de um familiar. Alguém poderia definir, descrever e imitar uma sensibilidade desse tipo com os nossos conhecimentos hoje?
Resumiremos algumas características funcionais do sistema auditivo. Quando consideramos o elemento tempo em música (ou na fala) observamos que fenômenos sonoros de distintas magnitudes coexistem. Digamos que abrangendo períodos de 0,00007 a 0,05 s. Observamos assim que:
O ouvido interno lida com vibrações microscópicas, principalmente as sensações primarias das notas ou fonemas.
O caminho neural entre o ouvido e a área auditiva do cérebro lida com as vibrações intermediarias, ou transientes.
As variações macroscópicas de tempo são processadas no nível superior, o córtex cerebral. Elas são as que determinam a mensagem – musical ou verbal –e seus atributos [ 4].
VOLTAR PARA O ÍNDICE
|